O Steve Jobs de Aaron Sorkin.

Estive ontem na pre-estreia de Steve Jobs, a convite do TOMMO, site de entretenimento e cultura pop. Fiquei muito feliz por conseguir ver esse filme antes da estreia oficial, dia 14 de janeiro, pois estava ansiosa por ele desde a sua estreia nos Estados Unidos, no ano passado.

Uma premiere especial aconteceu em San Francisco, à época em que eu estava lá. Não consegui ingressos, mas, me senti feliz por saber que presenças ilustres como Wozniak estavam ali, do ladinho da minha casa americana.

#stevejobs

A photo posted by Wei Yeh (@weicool) on

Também acabei não vendo o filme nos Estados Unidos porque as críticas comentavam que ele possuía muitos diálogos, o que talvez dificultasse um pouco a compreensão sem legendas. Então, para não perder nada do que o filme tinha para oferecer, esperei para vê-lo no Brasil.

Digo logo de cara que este é o Steve Jobs de Aaron Sorkin (o roteirista do filme) porque, essa história não teria a mesma grandeza se não tivesse sido contada da maneira que ele escolheu.

aaron_sorkins_golden_globes_steve_jobs_best-Screenplay

Aaron Sorkin, vencedor do Globo de Ouro de 2016 pelo roteiro de Steve Jobs.

Diferente de outras obras já existentes a respeito de Steve Jobs, como o excelente Piratas do Vale do Silício e o péssimo jOBS de Ashton Kutcher, a obra de Sorkin não conta a história do surgimento da Apple de forma linear, começando pelo mito da garagem que todos conhecemos. Ela tem como base a biografia feita por Walter Isaacson, mas passa longe da maneira como as coisas são contadas lá, propositalmente. Sorkin admite e defende uma licença poética para a sua visão da história de Steve Jobs.

O roteirista selecionou três momentos-chave, por trás de grandes lançamentos de produtos:

1984: o lançamento do Macintosh (veja a apresentação aqui)
1990: o lançamento do NeXT (veja a apresentação aqui)
1998: o lançamento do iMac (veja a apresentação aqui)

A escolha por três atos têm várias justificativas. Sorkin é, por natureza, um escritor de peças de teatro, não de filmes, embora tenha o maravilhoso A Rede Social no currículo. E o próprio descreveu o filme como “uma pintura, e não uma fotografia“, o que já indica o caráter artístico da obra.

Depois de assisti-lo, fui ler algumas críticas. Justamente por ser uma obra tão intensa, as opiniões se dividiram. Tiveram aqueles que detestaram, acharam tudo injusto e forçado, já  outros, curtiram a maneira como Sorkin e o diretor Danny Boyle construíram a narrativa, de forma elétrica e alucinante atrás de cada backstage.

Particularmente, gostei muito dessa escolha. O filme foi feito partindo do pressuposto de que todos já conhecemos o básico a respeito de Steve Jobs. A partir disso, que história poderia ser contada, que ainda não tivesse sido explorada, e de que maneira isso poderia ser mostrado, que fugisse ao tradicional?   A resposta veio com o foco em explorar o quão atormentado Jobs era em relação à filha, Lisa. Segundo Sorkin, foi depois de uma conversa com ela, que não quis ser entrevistada para a biografia à época em que o pai ainda estava vivo, que a história para o filme nasceu.

Lisa_Steve_Jobs  
Lisa e Jobs. Precisava mesmo de teste de paternidade pra provar a relação?

E se ver Steve Jobs sendo um completo babaca com companheiros de equipe não surpreende mais ninguém hoje em dia, vê-lo tratar com indiferença a filha e a mãe foram uma novidade trazida à tela. Essa jornada de redenção de Jobs em relação ao tema família, não só em relação a ele e Lisa, mas também, sutilmente, entre ele e os próprios pais – a questão da adoção de Jobs é abordada no filme -, complementa a história para tentar ajudar a construir um pouco melhor a cabeça de um homem tão complexo.

Apesar dessa abordagem, o filme não deixa de ser um delírio para os fãs da Apple. Vários grandes momentos da empresa estão lá. O comercial do Macintosh, de 1984, o Think Different de 1997, e, para mim, o que foi uma das melhores cenas de todo o filme: a volta de Steve Jobs para a Apple, anos após sua demissão. Esse momento é tão grandioso e bem feito na dinâmica visual do filme, que me causou uma lagriminha agarrada à cadeira, vibrando junto pela volta do maestro à sua orquestra.

O filme acabou mexendo comigo de várias formas. Além das muitas cenas da Califórnia, que me levaram de volta às experiências maravilhosas que tive por lá (inclusive na famosa garagem, que tive a oportunidade de conhecer), sempre fui apaixonada por Steve Jobs.

Visitando a garagem mais famosa de todos os tempos. ???? #lecaemsf

A photo posted by Leca Marriot (@lecamarriot) on

A visão que ele tinha de fazer um mundo melhor para as pessoas era algo que eu via com muita clareza. Eu sei que muitas pessoas não o viam dessa forma, e eu respeito a opinião de cada um. O filme mesmo aborda essa divergência, em um momento em que Woz aponta que ele “não fez nada”, nenhuma linha de código. Esse é o tipo de coisa que eu mesma já vi muitas pessoas dizerem. É uma posição difícil de assumir, mas eu sei que se não fosse a dureza de Steve Jobs, esse perfeccionismo insano e essa certeza absoluta de como seria o futuro, dificilmente estaríamos lidando com a tecnologia da maneira como fazemos hoje.

A falta de similaridade entre Fassbender e Jobs era uma das preocupações de muitos a respeito do filme. Confesso que, se fisicamente ambos não se parecem em nada, em muitos momentos, fui capaz de enxergar Jobs no tom de voz, no fogo dos olhos e nos trejeitos ao longo do filme. Fassbender é um excelente ator e captou muito bem a alma de Jobs para o papel.

fassbender-jobs

Jobs de Fassbender muito mais gato. 

Fãs de trilha sonora também vão sair encantados da sessão. Além da trilha sonora majestosa que dá o tom de tensão em todas as cenas, contei cinco diferentes músicas de Bob Dylan ao longo do filme (e durante a pesquisa para o post achei esse post maravilhoso em que Danny Boyle explica a razão da inclusão de cada uma das músicas no filme). O cantor aparece também em várias fotos, em diferentes momentos, o que fez meu lado fãzoca disparar de felicidade.

Dylan_SteveJobs_Garage

Pôster de Bob Dylan na famosa garagem da Califórnia.

Por fim, é preciso entender que o filme é um misto de biografia com ficção. É besteira querer procurar veracidade achando que toda a vida de Steve Jobs se desenrolava no backstage de suas apresentações, é claro que isso não acontecia. Mas foi com essa urgência, essa eletricidade e essa velocidade maravilhosa que Sorkin e Boyle resolveram contar sua história, alinhavando momentos-chave entre cada uma das apresentações, com maestria, sem deixar pontas soltas. Certamente, daqui a alguns anos, outro diretor pode resolver contar essa história de outro jeito, e tudo bem, porque esse é justamente o lado bom dos mitos, você pode escolher representá-los da maneira que achar melhor.

Steve Jobs estreia nos cinemas de todo o país em 14 de janeiro.

2 comments Write a comment

  1. Lembrei de você todas as vezes que eu vi alguma coisa sobre esse filme!
    Você até consegue me tirar essa birrinha que tenho do moço (e escreveu um post muito imparcial, eu jamais teria esse auto controle).

  2. Pingback: Oscar 2016 - O que ainda dá tempo de fazer até domingo - APTO 401APTO 401

Deixe uma resposta

Required fields are marked *.