Reflexões da geração atual com Master of None

Recentemente, tive uma conversa bem bacana com uma professora da pós, que me ensinou o conceito de experiência estética. Resumindo, é algo que te ensina a produzir uma obra tendo em mente o efeito que você espera causar no outro. Sendo o outro, um ser carregado de emoções, sentimentos e experiências prévias, totalmente individuais, que irão certamente influenciar na percepção daquela obra, é mais ou menos o conceito de empatia aplicado à arte. E veja bem, isso é difícil pra caramba de atingir.

Por isso, nos meus próximos posts (começando por esse), quero sempre ter em mente que quando apresentar algo a vocês, é normal que vocês não reajam da mesma forma, afinal de contas, cada um tem um histórico diferente.

Por outro lado, é um sentimento tão maravilhoso quando você consegue se identificar com alguma coisa que outra pessoa produziu (talvez pela dificuldade disso acontecer) que a empatia te joga para um nível quero-abraçar-essa-pessoa, e portanto, vale a pena continuar tentando atingir isso aqui.

Toda essa introdução lenga-lenga só para contar que me apaixonei por mais uma série da Netflix. Depois de uma paixão avassaladora por Jessica Jones,  foi a vez de me perder de vez com Master of None.

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Criada e estrelada por Aziz Ansari, a série me conquistou aos poucos. No começo, o tipo de humor sutil e disfarçado de autocrítica me confundiu. Mas, aqui vai uma dica de vida: não se deixe vencer pelo piloto. Conforme você avança os episódios, fica clara a reflexão que ele provoca em diversos temas, focando especialmente naqueles que assolam os millennials.

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O que me mais encantou na série foi a facilidade com que ele fala sobre temas invisíveis, mas que nos levam a refletir para que tipo de humanidade estamos caminhando. Egocêntricos, desinteressados e incapazes de tomar decisões sozinhos? Ou simplesmente boas pessoas tentando passar pela vida aproveitando tudo o que ela tem a oferecer ao alcance de um toque no celular? É fácil se ver nos dois lados da moeda o tempo todo. Especialmente porque Master of None tenta não apontar dedos e nem criar bandidos e mocinhos. Tudo é aberto para o espectador refletir.

Com cinquenta minutos cada, os dez episódios de Master of None abordam de tudo. Existe um foco muito grande na questão do racismo sofrido pelos imigrantes, por ser a história vivida por Aziz. Aliás, muito do que aparece ali é reflexo da vida do próprio ator. Seus pais na série são seus pais de verdade. E pelo personagem de Aziz, Dev, ser um ator, fica ainda mais fácil colocar o dedo em várias feridas de Hollywood a respeito da ausência de minorias nas produções artísticas.

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Talvez justamente por isso que a série seja lindamente democrática. Tem todos os perfis de pessoas possíveis, a começar pelo indiano, o amigo gordinho, a amiga lésbica, e por aí vai.

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Sim, tem feminismo aqui também.

Os episódios que mais me encantaram foram os que tratam a respeito da tecnologia. Dev faz uma crítica ferrenha sobre a mudança dos hábitos de comportamento das pessoas graças à facilidade do alcance da informação no bolso. Cenas altamente identificáveis dele usando o Yelp e as pesquisas no Google antes de tomar qualquer decisão são frequentes.

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O tema relacionamento também é fortemente explorado. Afinal de contas, se já é difícil escolher um bom lugar para comer comida mexicana, que dirá arrumar alguém para a vida toda, certo?

Os solteiros vão se identificar com várias situações, como a dificuldade que é se aproximar de alguém hoje em dia com tanto gelo virtual e cancelamentos em cima da hora. Os comprometidos também vão ter muito sobre o quê refletir, especialmente em função dos dois últimos episódios, que mostram um arco perfeito da vida de um casal que começa pela bagunça no chão do quarto e acaba indo parar nas questões mais fundamentais da vida a dois: em algum relacionamento é possível se entregar 100% sem dúvidas nem medos?

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Além do conteúdo maravilhoso, Master of None também brilha muito no aspecto estético. A abertura nostálgica brinca com uma tipografia mais antiga que lembra filmes antigos de Woody Allen e é misturada a uma música, sempre relacionada ao tema do episódio. Aliás, a trilha sonora é inteligentemente utilizada como forma de humor em diversos momentos da série e por isso, ganhou elogios. Ela está disponível no Spotify.

E enquanto a indecisão a respeito de uma segunda temporada paira no ar, resolvi assistir ao stand-up de Aziz Ansari, também disponível na Netflix.

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Mais antigo do que a série, pra mim foi interessante assisti-lo depois, pois foi possível perceber que muitas das referências para os episódios da série já estavam presentes na cabeça de Aziz, que, claramente, tem um dom nato para a atuação, interpretando várias das situações que ele mostra na série sozinho no palco do Madison Square Garden.

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E como obsessão pouca é bobagem, estou em paralelo lendo Modern Romance, livro escrito por Aziz em parceria com um sociólogo chamado Eric Klinenberg.

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Foi interessante descobrir que ele não está só fazendo piada sobre o assunto. Ele realmente foi pesquisar para entender como toda a nossa forma de se relacionar está mudando e se não tomarmos cuidado, vamos realmente ficar parecendo ridículos com a forma que tratamos uns aos outros. É o tipo de reflexão que comecei a ter lá atrás, quando vi as autocríticas da série Selfie, e que me faz refletir todo dia antes de mandar (ou não) uma mensagem para alguém.

Em suma, a experiência estética de Master of None e tudo o que o Aziz Ansari tem produzido em decorrência disso bateu forte aqui comigo. E considerando que estamos todos nesse mesmo barco, tentando entender a vida adulta e fazer as melhores escolhas com as opções que temos, eu imagino que a empatia com a série vá bater em você também. Então, em vez de se desesperar e ter uma crise de pânico, abra a Netflix e vá dar umas risadas (se bobear, de si mesmo).

2 comments Write a comment

  1. Oi linda, Para de me tentar, tenho mestrado a escrever!
    Mas depois, esta série e o livro estão na minha lista!

    Vc comprou pra Kindle?

    Bom, o que vc falou no começo do seu post, tbm vi numa aula que estou tendo de inglês acadêmico, sempre tenha seu leitor em mente! E sempre escreva pensando criticamente:”isso é relevante? Chequei as fontes?”

    beijus

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