Selfie: um estudo de caso sobre as relações sociais no ambiente digital

Eu comecei uma pós-graduação em Comunicação Online neste ano e a melhor coisa que ela me ensinou até agora é que para se comunicar no ambiente digital, você precisa primeiro saber se relacionar fora dele.

O bacana dessa pós é que ela segue um modelo modular. Ou seja, enquanto eu possuo professores que acham perfeitamente normal participar do casamento de um amigo via Skype, outros, que possuem uma linha de pensamento mais próxima da minha, concordam que a velocidade com que a tecnologia tem avançado está provocando mudanças muitas vezes não muito positivas na nossa forma de se relacionar.

Foi em uma dessas aulas que eu me deparei com esse TED Talk apresentado por Sherry Turkle, uma psicóloga que já foi capa da Wired em 1996 por celebrar as comunidades virtuais e em 2012, voltou ao TED para dizer que a tecnologia está nos levando a lugares que nós não queremos ir. Ela explora o conceito “Alone Together” e diz que “esperamos cada vez mais da tecnologia e menos um dos outros“. Vale a pena assistir completo para entender melhor a construção do raciocínio.

E por mais que eu seja uma usuária assídua, ouvir todas essas coisas me deixou profundamente deprimida, não com relação à tecnologia, mas sim, com os seres humanos. Porque nos perdemos dessa forma?

Fonte.

E foi com tudo isso em mente, que eu me deparei com Selfie, uma série da ABC. A premissa não é novidade (a série é inspirada em My Fair Lady, que por sua vez, foi inspirada em O Pigmaleão) e é bem fácil de entender:

Selfie conta a história da jovem Eliza Dooley (Karen Gillan) que é viciada nos seus perfis nas redes sociais e vive mais preocupada com seus “likes” no mundo virtual do que com seus relacionamentos no mundo real. Mas sua obsessão narcisista acaba lhe trazendo problemas sérios. É então que ela vai atrás de ajuda para recuperar sua imagem pública. Ela busca ajuda de Henry (John Cho), um especialista em marketing, para que ele possa ensiná-la a dosar entre os relacionamentos reais e os virtuais. Viciado em trabalhos e um pouco irritado com a sua nova “empreitada”, Henry vai acabar aprendendo muito com Eliza também. (via AdoroCinema)

Obviamente, eu não estou aqui para julgar a qualidade do roteiro, produção, nem nada do gênero, mas sim, para falar da forma como a série retrata as relações sociais nos dias atuais.

E o que se esconde atrás do terrível nome da série e do argumento raso do piloto é uma análise, ou melhor, uma crítica, recheada de ironia e extremamente auto-consciente dos comportamentos que temos adotado e levado adiante, muitas vezes sem perceber.

Separei alguns exemplos para citar:

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A 1ª lição que Henry dá a Eliza em sua jornada de transformação é muito simples. Ele ensina Eliza a perguntar como a secretária da empresa está, em vez de só despejar seu fluxo de comentários aleatórios sobre ela.

Na primeira resposta que Charmonique, a secretária, dá, Eliza já está grudada no celular, sem ter prestado atenção a uma palavra do que ela disse.

Você já se viu em alguma das duas pontas dessa situação? Onde será que foi parar o interesse genuíno das pessoas naquilo que você comenta?

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No segundo episódio o foco é no fato de Henry não ter uma conta no Facebook. Os amigos de trabalho tiram sarro dele por isso e ele tenta se defender dizendo que está no Linkedin. 

E aqui há um paradoxo interessante. Henry não é convidado para a festa de aniversário da guria do TI da empresa pois não recebeu a solicitação via Facebook, mas ao mesmo tempo, assim que ele descobre que Eliza se machucou (com uma selfie que ela postou do hospital), ele corre pra lá para vê-la.

Ou seja, é possível viver com o melhor dos dois mundos, o difícil é encontrar esse equilíbrio e não depender somente de solicitações de eventos no Facebook, mas criando interações espontâneas, como visitar uma ex para colocar as coisas em dia, em vez de ficar stalkeando-a, por exemplo (Henry também faz isso nesse episódio, melhor personagem ♥).

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Em um dos meus episódios favoritos (lá se foi a imparcialidade do post), Eliza descobre aquilo que muitos de nós já sabemos: a internet é um imenso faz-de-conta.

Seguindo sua nova atitude de “fazer o bem ao próximo”, Eliza acaba perdendo o final de semana para ajudar a colega de trabalho, tomando conta do seu filho, o que a impede de fazer ~coisas descoladas~ para bater sua “rival” no status de seguidores do Instagram. O que a própria criança revela a ela, é que ela poderia facilmente “forjar” sua própria festa e diversão para sua rede.

Esse é um caso já tão conhecido, que não chega mais a ser novidade. Existem até cases de estudo sobre isso, como o da holandesa que forjou uma viagem para a Tailândia, enganando pais e amigos sem precisar sair da própria cidade. Outro exemplo bom é o curta-metragem noruguês “What’s on your mind?“, que faz uma forte reflexão sobre a necessidade de mostrarmos constantemente o quanto somos mais felizes, mais ricos e mais bonitos do que os outros.

A verdade é que se a vida fosse feita somente de “altos”, seria impossível viver. Precisamos dos “baixos” para valorizar aquilo que é bom. O problema é que a vida digital parece excluir esses “vales” da equação.

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Ah, a vida sem internet! Nesse episódio, Eliza e Henry vão para a casa de verão do chefe e Eliza se revela uma positiva surpresa em um lugar sem conexão.

Mais uma vez, o plot inverte a situação e mostra como Eliza consegue encontrar outras maneiras de se divertir sem seus milhares de seguidores, enquanto Henry surta tentando fazer tudo ser perfeito na companhia do chefe.

O que mais me encanta nessa história é o quanto as pessoas tem a oportunidade de conhecer umas às outras quando o celular não está envolvido. Tamanha é a aproximação, que, Henry e Eliza chegam a quase compartilhar um momento de maior intimidade até que, veja bem que (in)conveniência do destino, eles encontram sinal e voltam correndo cada um para dentro da sua bolha individual.

O que você está perdendo deixando de conviver com aqueles ao seu redor? Que experiências deixou passar enquanto estava com a cabeça para baixo scrollando a timeline?

E assim a série seguiria, pontuando ao longo de cada episódio pequenos detalhes como esses que citei. E eu sei que audiência e publicidade são fatores decisivos para o cancelamento de uma série, mas no fundo, no fundo, minha mente conspiratória se pergunta se não foi uma decisão muito maior dar um fim a essa reflexão sobre o que andamos fazendo das nossas vidas com essa explosão de tecnologia.

Sabemos que sempre existirão aqueles que se beneficiarão da alienação alheia. Por isso, o primeiro passo é sempre o mais importante: vamos falar sobre isso?

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